Atraído pelas duas faces

Até o final da década de 1990, o mercado financeiro brasileiro era um imenso Clube do Bolinha em que as mulheres se limitavam a ocupar funções secundárias. Dificilmente se via alguma com poder de decisão. Havia exceções, é claro.

Duas ou três eram bem conhecidas por todos. Tinham em comum uma inteligência extrema e um estilo firme e duro de exercitar o poder. Era um comportamento natural, afinal, além de constituírem uma minoria, havia uma discriminação não muito velada.

Nessa época, a instituição para qual eu trabalhava iniciou conversas sobre uma operação de porte em que eu deveria atuar junto a uma dessas poucas e poderosas mulheres.

Depois de muitas brincadeiras no escritório, típicas da discriminação  existente, fui alertado para estar muito bem preparado, pois seria posto a teste por ela ininterruptamente. Não gostei. Afinal, não era seu subordinado e o trabalho deveria ser em conjunto. Mas não desprezei o conselho.

Fui para a primeira reunião com algum nervosismo, pois seria no escritório dela. Encontrei uma mulher mais nova do que esperava, com traços extremamente delicados, roupas sóbrias – um vestido fechado no pescoço, com comprimento abaixo do joelho, que só permitia que se vissem as mãos. Nenhuma joia ou ornamento, apenas um discretíssimo brinco, quase de criança. Seu aperto de mão foi firme e gelado. Seu escritório refletia o mesmo estilo. Não havia nada que demonstrasse um traço de sua personalidade.

Após as amenidades de praxe, começamos a conversar sobre trabalho e, aos poucos, observei modificações em sua voz. Os gestos tornaram-se mais duros, o rosto perdeu a serenidade. Houve quase uma transformação. Percebi de onde vinha a fama de ser difícil e até cruel com seus subordinados.

Aquela primeira reunião durou cerca de três horas. Avançamos em uma série de pontos, mas sobraram dois pontos de divergência. Já escaldado escutei todas as suas argumentações, ditas olhando diretamente nos meus olhos e com prazo para resposta dado, 24 horas! Abri um leve sorriso, que ainda não sei se foi de nervoso ou se foi uma tentativa de transmitir uma simpatia às suas exigências. Fui quase fuzilado pelos seus olhos pretos; o tom de voz subiu. Estendi a mão para as despedidas.

No dia seguinte, nova reunião, dessa vez em meu escritório. Ela chegou, mais uma vez cheia de simpatia, leveza no olhar, sorriso contido e bonito, e aquelas roupas que impediam distinguir as formas do corpo. Estava ainda  mais chique do que a véspera. Notei uma pequena mudança: um maior cuidado com a maquiagem. Confesso sem meias palavras que se naquela época eu não estivesse muito feliz com meu casamento, ela me despertaria uma grande atração. Ela tomou a iniciativa da conversa, elogiou o escritório, apreciou a bandeirinha do Fluminense e a tabela de basquete na minha lixeira. Fez elogios elegantes à minha instituição.

Ao retomar o trabalho, mostrei que havíamos obtido consenso em um dos pontos de divergência. Mas não cederíamos no outro. Nesse momento, testemunhei uma transformação impressionante. O rosto crispava-se, a voz se elevava e nada do que eu dizia era ouvido. Esperei o fim de sua argumentação, também nervoso. O café chegou pelas mãos da copeira, e minha interlocutora imediatamente passou por outra transformação. Solícita e simpática, ajudou a servir o café e me passou a primeira xícara:

— Você quer adoçante ou açúcar?

— Adoçante, por favor.

Ao voltarmos à questão pendente, pedi que buscássemos uma terceira maneira de enxergar a questão.

Concluímos o trabalho a contento para as duas partes.

Convidei-a para almoçar, ela aceitou.

Observei atentamente como aquela mulher conseguia com a mesma força, transitar entre duas maneiras de agir, sem perder a linha de raciocínio, e quase “prever” as palavras e movimentos de seus interlocutores. A conversa girou em torno de diversos assuntos e fui percebendo, depois de muitas perguntas, as múltiplas facetas daquela personalidade complexa. Era ao mesmo tempo uma profissional impiedosa que demitia pessoas como quem bebe água e fazia operações no limite da ética e da legalidade, e que por outro lado trabalhava como voluntária a cada quinze dias em um hospital pediátrico. Busquei, sem sucesso, uma brecha para abordar algum assunto mais pessoal. Sua habilidade em não deixar passar nada de sua vida privada me intrigou.

Até aquele instante, eu costumava ter medo de estar diante de alguém com algum tipo de bipolaridade. Na verdade, ela era ao mesmo tempo, à vista de todos, uma pessoa do “bem” e do “mal”, como se diria hoje. Não havia traços de mudança de opinião e sim de atitudes, como quem tivesse determinado como agir com cada um, sem se permitir nenhum momento de relaxamento. Minha curiosidade não foi completamente satisfeita durante aquele almoço. Eu queria convidá-la para nova conversa, mas acho que isto estava escrito na minha testa, Ela se despediu.

— A partir de agora, trabalho para os advogados.

Sorri desapontado e vi nela um sorriso de triunfo. Quanta competição.

Fizemos outros trabalhos juntos. Depois, soube que se casou e que rapidamente se separou, ficou meses sem trabalhar, mas quando voltou estava mais bonita, com as duas faces de seu temperamento ainda mais expostas. Eu a encontrei em eventos sociais, elegante e gelada, ocasiões em que nunca ficava mais do que meia hora.Sua personalidade sempre me fascinou, sua capacidade e inteligência provocavam minha admiração. Suas duas faces tão expostas me amedrontavam.  Ou me atraíam.

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