Login

Usuários Online

Nenhum
Boletim Agora Boletim - História do Tempo Presente O SHOW ESTADUNIDENSE DOS ASSENTAMENTOS

O SHOW ESTADUNIDENSE DOS ASSENTAMENTOS

Escrito por Luiz Fernando Sancho    Dom, 11 de Outubro de 2009 14:05

 

 

Só o presidente Bush pai decidiu não fornecer a Israel as garantias financeiras no início da década de 90 em função da ampliação dos assentamentos, mas esta medida não foi suficientemente forte para parar Israel e acabou se revelando um fracasso. Israel continuou, a medida estadunidense desapareceu e as demandas contra os assentamentos vindas de toda parte continuaram. Os árabes ficaram se queixando o tempo todo e pediram aos EUA de pressionar Israel, mas obtiveram só palavras tranqüilizadoras.

 

Provavelmente, os EUA acreditam sinceramente que os assentamentos são um obstáculo para a paz, mas esse obstáculo não merece mais do que uma oposição verbal. E quando é confrontado com os interesses vitais dos EUA na região, interesses que Israel ajuda a satisfazer, esse obstáculo significa bem pouco. Com certeza, os interesses estratégicos são prioritários em relação aos interesses menos importantes e todas as medidas [punitivas] estão fora de questão quando os primeiros correm o risco de serem atingidos.

 

Os regimes árabes, perdedores que têm demonstrado ser extremamente incapazes e avessos a fazer eles mesmos o trabalho, são fracos demais para pressionar os EUA a dar passos tangíveis contra Israel; se tivessem força suficiente, não precisariam se espaldar nos EUA e enfrentariam Israel pela força. A debilidade dos árabes, e sua dependência dos EUA em questões de segurança, econômicas e financeiras, têm servido de estímulo aos EUA para dar a Israel o tempo de que precisa a fim de criar uma sociedade judaica na Cisjordânia.

 

Na prática, o que quero dizer é que os EUA nunca mantiveram uma postura séria contra os assentamentos israelenses e têm dado a Israel o apoio de que precisa através de vários canais, além dos meios de comunicação de massas. Os EUA proporcionam ajuda financeira, econômica, militar, política e diplomática a Israel, e se a coisa fosse séria já poderíamos ter visto medidas práticas contra Israel. Essa política estadunidense fala por si só no que diz respeito ao chamado muro de segurança. Os EUA foram consultados antes que Israel começasse a construir o muro e Israel não deu início ao projeto sem o consentimento estadunidense. Conforme Israel iniciava a construção, os EUA brincaram de esclarecimentos. Atendendo algumas queixas palestinas, pediram a Israel para fazer o possível a fim de minimizar o sofrimento palestino mantendo o pressupostos: até que a segurança de Israel seja afetada. Por isso, Israel decidiu liberar o povoado de Baqa Ash-Sharquiyya perto da cidade de Tulkarem e também um quilômetro quadrado de terra perto de Ramalah.

 

Agora é o presidente Obama a fazer fortes e firmes declarações contra os assentamentos. No discurso do Cairo, ele deixou isso claro e pediu a Israel para facilitar o caminha para a paz. De início, Obama era contra os assentamentos, depois começou a falar de uma paralisação parcial na ampliação dos assentamentos, agora fala de uma paralisação momentânea. Suas expressões firmes começaram a tremer e é bem provável que agora comece a falar como seu antecessor.

 

O presidente Obama tem vinculado a paralisação dos assentamentos à normalização das relações entre árabes e israelenses. Continua pedindo aos regimes árabes que normalizem suas relações enquanto Israel paralisa a construção de novas colônias. Obviamente, o que Obama não diz é que esses regimes foram normalizando suas relações com Israel durante muito tempo, mas ele quer que anunciem isso publicamente e que sigam um plano bem organizado de normalização das relações em nível básico. Os regimes do Egito, Jordânia, Marrocos, Tunísia, Qatar, Bahrein e Emirados Árabes têm normalizado suas relações e, inclusive, os sauditas têm cooperado com os israelenses em questões diplomáticas e de segurança. Via de regra, os povos árabes têm se oposto ao processo de normalização e os regimes têm dificuldade em tornar público o que vieram fazendo há anos de forma oculta.

 

Obama só quer que os governos árabes sigam os passos da Autoridade Palestina que vem se coordenando com os israelenses em questões de segurança contra a população palestina. Quer que os governos árabes tenham a coragem de serem francos e honrados com seus próprios povos, dizendo a eles que não há outra opção a não ser aceitar Israel como parte natural da região árabe-islâmica e estabelecer com ele relações normais.

 

Se Israel der passos que possam fazer parecer que eles conseguiram algo para os palestinos rumo à criação de um Estado palestino, então poderão se colocar abertamente a favor da normalização. Desta forma, o que o presidente dos Estados Unidos está pedindo a Israel é de fazer uma pequena concessão por um tempo breve para que, em troca, Israel obtenha o que vem procurando há anos. Mas o maior problema de Obama é que Israel está convencido de que os árabes vão ceder sem obter nada em troca. De acordo com a avaliação israelense, os árabes começaram com a retórica de apagar Israel do mapa e agora vão parar com a demanda de pôr um freio à ampliação dos assentamentos na Cisjordânia. Assim, o show de Obama tem como objetivo o de fortalecer a argumentação dos regimes árabes a favor de Israel.

 

Mas há grandes obstáculos com os quais Obama se depara em relação a essa questão dos assentamentos, e que resumo no que segue:

 

1. O atual Primeiro Ministro de Israel não vai ceder por questões internas. Sua coalizão se sustenta pela ideologia e qualquer desvio pode vir a derrubar o seu governo.

 

2. Israel é suficientemente forte nos EUA para fazer frente a pressões verbais da atual administração. Conta com os lobbies judaico e sionista, muito bem organizados, com o congresso dos EUA e com o apoio de uma boa porcentagem da população estadunidense.

 

3. Os regimes árabes não se atrevem a dar passos abertamente visíveis rumo à normalização porque toda a região está sendo testemunha do desenvolvimento da nova estrutura de poder com mudanças no equilíbrio de poder. A não-declarada aliança árabe-israelense-estadunidense enfrenta o desafio real do não-declarado eixo iraniano-sírio-hezbollah e os regimes árabes se deparam com ameaças reais e tangíveis.

 

4. Os árabes não estão em condição de exercer pressão sobre a administração estadunidense devido à sua dependência dos EUA e, inclusive, de Israel no que diz respeito a algumas questões de segurança.

 

5. Os palestinos são muito fracos e aparentemente venderam seus direitos nacionais em troca de privilégios pessoais como altos salários e carros de luxo. São incapazes de envergonhar Obama ou de mobilizar partidários nos EUA.

 

6. Obama vai descobrir que os regimes árabes não passam de simples marionetes que não podem tomar iniciativas e que são apenas ditaduras muito odiadas por seus próprios povos. Ditas ditaduras são instáveis e não podem sobreviver sem aplicar medidas cruéis contra seus próprios povos.

 

Netanyahu sabe que ele é Primeiro Ministro num mundo de interação desenfreada e mútua dependência. Por isso deu um astuto, mas enganoso, passo ao ratificar a construção de centenas de novas casas com a promessa ambígua de paralisar momentaneamente a construção de novos assentamentos. Desta forma, deu a permissão para construir novas casas que serão erguidas durante a paralisação.

 

No passado, Israel paralisou a construção de novos assentamentos durante seis meses, mas isso não evitou que construísse novos assentamentos e novas casas. Enquanto o outro lado for fraco e não puder enfrentar o desafio, a política israelense não vai mudar e continuará roendo a terra da Cisjordânia.

Última atualização em Dom, 11 de Outubro de 2009 14:47
 

Tradução

EnglishDutchFrenchGermanItalianPortugueseSpanish
Você está aqui: Chamada Boletim Agora Boletim - História do Tempo Presente O SHOW ESTADUNIDENSE DOS ASSENTAMENTOS
Secured by Siteground Web Hosting