Entrevista com Erick Benítez Martínez, autor do livro "A Traição da Foice e do Martelo" |
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Escrito por Luiz Fernando Sancho
Qui, 29 de Outubro de 2009 13:02
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Agência de Notícias Anarquistas > Ficou surpreso quando recebeu a notícia que na apresentação do seu livro “ATraição da Foice e do Martelo”, no dia 17 passado, no Centro Social Okupado La Gotera, em Madri, tenha causado polêmica, tensão e violência por parte de um grupo de “antifascistas comunistas” contra os distribuidores do livro na Espanha?
Erick Benítez Martínez < Não, não me surpreendeu. Já sabia que a temática do livro era controversa, sobretudo devido a esta moda da "união de todas as esquerdas".. Quem promove isso esquece que o anarquismo não pertence à esquerda, pois esta não passa do pólo oposto da direita, são as duas os pólos opostos no encalço do poder político e nós, como anarquistas, rejeitamos o poder político. Como conseqüência, não estamos nem com a direita nem com a esquerda, só com o povo, para destruir ambas correntes políticas, assim como o Estado, órgão pelo qual ambas as correntes políticas lutam entre si para conquistar.
Mas, para responder à tua pergunta, já sabia que os marxistas atuais, apesar do demonstrado pela história, se recusam a aceitar que o regime marxista não passa de uma mistura de socialismo e autoritarismo, e que por isso mesmo um livro que lhes mostrasse tudo isso seria atacado por eles. Mas pensei (na minha ingenuidade) que a luta seria no campo ideológico, não no da violência. Ao escrevê-lo e fazendo observações sobre eles devia ter levado em conta que eles são autoritários e que a violência autoritária está ligada às suas idéias. ANA > Conversando com uma companheira, ela comentou que o seu livro é muito interessante, pois permite a discussão tanto interna como externamente aos meios libertários, pela contribuição que possa dar aos companheiros e a todos os ativistas sociais, para perceberem um pouco melhor o que se passou com os regimes de influência marxista, a falta de liberdade, o autoritarismo, os crimes que foram cometidos pelo capitalismo (de Estado), alguns aspectos da revolução espanhola. Segundo ela, ainda, o livro é um ponto de partida, não de chegada. É um ponto de partida para os argumentos que possamos apresentar nos debates francos, corajosos, abertos com todos aqueles interessados em mudar a si próprios para mudar o mundo. É um ponto de partida para traçar claramente a linha intransponível que nos separa dos autoritários, dos defensores do capitalismo (de Estado, também), dos que justificam e defendem regimes autocráticos. É a linha de fogo contra aqueles que acreditam que o fim justifica os meios, contra aqueles que acreditam numa "ácracia marxizada" ou num "marxismo libertário" ou... Concorda? Erick < Sim, concordo em grande parte. Parece-me, do ponto de vista pessoal e militante que devemos claramente distinguir (repito) o que somos e o que são eles. Não podemos, em nome da chamada "unidade" sacrificar os princípios ácratas e unirmo-nos a qualquer um que se reivindique "antifascista", porque por trás desta classificação estão desde os marxistas até a esquerda política (de que também fazem parte os marxistas), e em nome dessa chamada "unidade" sacrificar os princípios e acabar por unir-se aos partidos cujo objetivo é conquistar o poder do Estado. Esses conceitos de "anarcomarxismo" e demais coisas nesse estilo não são mais do que contradições bem visíveis. Por outro lado, se o meu "trabalho" (não considero um trabalho, mas uma tarefa que contribui para as idéias) que fiz no livro é instrutivo para os companheiros, fico completamente satisfeito. ANA> Quando o livro foi lançado no México, também foi estopim de protestos e debates acalorados com “comunistas”? (risos) Erick < (risos) Não, com os comunistas não houve nenhum debate, houve sim com os marxistas. É uma das coisas que tento sublinhar no livro: O marxismo não é sinônimo de comunismo. Pois no comunismo é suposto a socialização dos meios de produção. O que eles propõem é a centralização dos mesmos nas mãos do Estado, estão mais próximos de um regime coletivista estatal ou de uma ditadura militar do que do comunismo autêntico.
Aqui no México, a edição do livro gerou controvérsia, mas uma polêmica saudável, de debate de idéias. Na apresentação do livro, os companheiros só me tinham atribuído uma hora e meia para a minha exposição. Mas porque o ato que se seguia no programa foi cancelado e as pessoas estavam muito interessadas no tema, a minha apresentação e a sessão subseqüente de perguntas e respostas prolongou-se por quase 4 horas. Mas, te repito, tudo tem sido sempre (eu tive muitas discussões com o PCM [Partido Comunista Mexicano] e suas filiais) através da discussão de idéias.
ANA > Avalia que o episódio em Madri tenha sido um conflito isolado de “comunistas fanáticos”? (risos)
Erick < Embora ponham essa classificação entre aspas, na realidade essa designação está bem aplicada. A história mostrou que o marxismo não é senão uma variante do capitalismo, um capitalismo de Estado (A União Soviética foi o exemplo mais evidente disso). Se nesta altura, quando já se pôs a nu não só a falsidade e a ruína dos regimes marxistas, assim como do capitalista, eles (os marxistas) continuam teimosamente a defendê-las, isto porque são, como disseste, e bem, "fanáticos". Porque o fanatismo cega a razão, a análise dos fatos. E isto é algo que neles se mantém ausente, pois doutro modo o movimento marxista já não existiria, agora que ficou demonstrado pela história não ter passado de uma farsa.
ANA > O livro foi apresentado em outras cidades da Espanha?
Erick < Sim, pelo que sei foi apresentado em outros lugares, mas em nenhum houve problemas.
ANA > Uma pergunta difícil. Você acha que foi o mais correto, imagino por receio de incitar mais violência, os compas espanhóis terem cancelado a apresentação do seu livro no CSO La Gotera? Erick < Realmente é difícil avaliar estando eu no México. Mas considero que não deviam ceder-se ao cancelamento da apresentação, pois isso dá margem para que esta gente imponha seus pontos de vista e suas censuras ao que eles acham bom ou ruim. Agora, como te disse, isto é desde a distância, teria que estar no lugar dos companheiros para opinar com acerto. ANA > Pode fazer um resumo do livro?
Erick < Sim, claro, o livro compõe-se de duas partes, uma teórica e uma histórica. Na teórica procuro demonstrar que o marxismo, quando é posto em prática, nada mais faz do que reproduzir os mesmos métodos autoritários do regime capitalista, assim como também a respectiva escravatura econômica, política e social do povo. Para isso me apoio constantemente na citação dos mesmos livros marxistas, e qualquer companheiro pode consultar ditos livros e confirmar os meus pontos de vista.
Na parte histórica, abordo alguns temas que me parecem fundamentais para mostrar como tem sido o comportamento dos marxistas na história. Em geral, abordo as "Origens do marxismo", a "Língua solta da serpente" (cujo objetivo é mostrar como os marxistas têm falado dos anarquistas e como os têm tratado), a "Internacional dividida por Marx", a " A contra-revolução marxista na Espanha" e, finalmente, o " Pacto Stalin-Hitler". Tudo isto para no final dar uma conclusão.
ANA > E qual foi a "urgência" que te levou a escrever o livro?
Erck < Uma das principais razões que me motivou a escrever o livro foi entender que é necessário ter claro a distinção entre ambos: nós libertários, eles autoritários; nós anti-estatistas, eles a favor do Estado (evidentemente, o deles); nós lutamos pela liberdade, eles pela ditadura (do proletariado, dizem para disfarçar isso, mas ditadura, no fundo). Aqui, no México, por vezes há companheiros que olham para eles como se estivessem no mesmo caminho, o que me parece aberrante, dado que tanto os nossos meios como os nossos fins são completamente distintos. A história revela que em todas as situações, em todos os diferentes locais em que anarquistas e marxistas se uniram, os segundos acabaram por assassinar pelas costas ou trair os primeiros.
Alguns pensam que é melhor deixar tudo isso de lado, esquecer os fatos e lutar "contra o inimigo comum", mas isto é um grave equívoco: não temos inimigos em comum. Nós somos inimigos acérrimos de todo o tipo de Estado, eles só são inimigos deste Estado, não da instituição do Estado como tal. Portanto, na revolução vemo-nos a nós do lado do povo e a eles do outro lado da barricada, defendendo a reconstituição do Estado, mas desta vez nas suas mãos.
Além disso, dadas as freqüentes uniões de anarquistas e marxistas (veja-se o fatal equívoco que são, por exemplo, RASH - Vermelhos e Anarquistas Skin Head), torna-se mais clara a necessidade de distinguir bem o que somos e o que eles são. Este foi um dos principais motivos que me levaram a escrever o livro. ANA > E quanto tempo levou para pesquisar e escrever o livro? Erick < O livro começou primeiro como um folheto. Mas como no folheto não foi possível abarcar todo o conteúdo do mesmo (e mesmo no livro há coisas que faltam), decidi completar a informação e acabou sendo um livro. Com esse objetivo demorei três anos a fazer a investigação, dado o enorme conteúdo que existe sobre este tema, disperso em muitos livros e folhetos. ANA > O livro foi editado em quantos idiomas?
Erick < Não, por enquanto só está publicado em castelhano. Mas alguns companheiros da França farão uma tradução de uma parte do livro, para escrever sobre o mesmo no seu periódico.
ANA > Pensa em escrever outro livro, com outra temática, menos polêmica? Ou o anarquismo é polêmico por natureza? (risos)
Erick < O anarquismo é controverso às vezes, dada a grande quantidade de mentiras que sobre ele têm sido propagadas pelos meios de comunicação e nas instituições do Estado. Todavia, quando é bem analisado, com isenção, acaba por se revelar, no fim de contas, a aspiração de grande quantidade de pessoas que por vezes desconhecem que as suas aspirações são, afinal, anarquistas.
Em relação à tua primeira pergunta, sim, continuo a escrever. Atualmente tenho alguns artigos que não foram publicados ainda e estou a falar com o pessoal das editoras. Hormiga Libertaria [editora] decidiu que logo que termine os textos os envie para que sejam editados na forma de livro. Alguns estão já terminados, outros estão por terminar e um outro por começar. Mas espero terminá-los e continuar a escrever. Também contribuo, (quando o tempo me permite), com artigos, para alguns periódicos anarquistas locais. ANA > Normalmente começamos a entrevista pedindo para que o entrevista faça uma pequena apresentação sua, desta vez esta pergunta ficou para o final. Quem é Erick Benítez Martínez? (risos) Erick < Erick Benítez Martínez é somente um companheiro dos ideais que todos vocês têm. Se te referes a isso, sim, sou militante anarquista há quase 11 anos e já participei em vários coletivos, projetos editoriais, organizado um ou outro coletivo, escrevi este livro e outro artigo mais (algo extenso) intitulado “Rompamos as Correntes”, publicado artigos em periódicos, participado em congressos, ações contra as forças de (in)segurança do Estado… Enfim, tenho feito tudo o que tem estado ao meu alcance para a propagação do anarquismo e o seu fortalecimento. Pouco ou muito, fiz tudo o que estava nas minhas mãos.
ANA > Algo mais? Obrigado!
Erick < Sim, quero agradecer, nestas linhas, a todos os companheiros dos distintos países que se puseram em contato comigo para me fazerem perguntas, entrevistas e mostrar o seu apoio e solidariedade, assim como o seu repúdio para com os atos sucedidos no passado dia 17 de outubro em Madri. Também os meus agradecimentos aos companheiros da Agência de Notícias Anarquistas por se interessarem por este tema e por esta entrevista. Só isso.
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| Última atualização em Qui, 29 de Outubro de 2009 13:15 |