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GAZA, AMBICIOSA COM O BARRO

Escrito por Luiz Fernando Sancho    Sáb, 07 de Novembro de 2009 12:53

 

 

Desde que terminou a guerra em Gaza, várias casas de dois ou três cômodos têm sido construídas com o barro. O novo posto policial de Sheikh Zayed é um dos maiores e mais ambiciosos projetos.

 

Uma intricada série de grossas paredes e quartos com arcos profundos dão um toque artístico ao edifício anterior da delegacia de polícia que era de cimento e foi bombardeado durante os ataques. Quando estiver terminada, a nova construção terá 550 metros quadrados, com 7 escritórios de 3,5 m por 3,5 m, e 8 câmaras de 3 metros de largura por 8 de cumprimento, com tetos abobadados que lembram a arquitetura das casas palestinas de Nablus a Jerusalém.

 

O lugar, junto à rodovia costeira que chega a Beit Lahia, é aberto e espaçoso em aberto contraste com seu pano de fundo: conjuntos habitacionais de cimento construídos bem antes do assédio israelense a Gaza, quando o cimento era acessível.

 

O engenheiro e supervisor do lugar, Sameh Al-Khalout, explica em palavras simples o processo artesanal de construção. "Os tijolos de barro levam entre uma e duas semanas entre serem moldados e secarem", diz, ao apontar para as fileiras de tijolos secados ao sol. "O custo de cada tijolo é de cerca um shekel (25 centavos de dólar)".

 

Al-Khalout diz que o barro é extraído de uma área próxima a Beit Lahia, e a palha vem dos agricultores locais. "Vamos colocar esta pasta no telhado, para selar e proteger da chuva". A madeira é utilizada temporariamente para fazer as sustentações dos arcos do telhado e as janelas, até que o barro endureça quanto basta. Então, a madeira é retirada e volta a ser utilizada da mesma maneira em outro lugar. À exceção dessas tabuas de madeira, não se utiliza nenhum outro material convencional nem caro demais.

 

O cimento chega de contrabando através dos túneis entre o Egito e a Faixa de Gaza, e seu preço é cerca de dez vezes maior do que antes do assédio. Uma tonelada de cimento dos túneis sai por cerca de 3.400 shekels (850 dólares), isso frente aos 350 shekels que custava antes de junho de 2007.

 

Husam Toubil, da agência das Nações Unidas para o Desenvolvimento, afirma que Gaza precisa de 50.000 toneladas de cimento para reconstruir as casas destruídas e mais 41.000 toneladas para os prédios públicos.

 

Al-Khalout diz que os problemas vão além da falta de acesso aos materiais. "Para a maior parte dos nossos trabalhadores, esta é sua primeira experiência na construção com tijolos de barro. E tem mais. Na medida em que temos que colocar cascalho e palha na argila, e a mescla de cimento e barro, fazer os tijolos e depois construir a atual delegacia, precisamos de mais trabalhadores do que quando se usa cimento".

 

Numa faixa de terra fechada onde o desemprego se aproxima do 50% e a pobreza tem chegado ao 90%, segundo o recente informe da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), os trabalhadores enfrentam o calor para ter a oportunidade de ganhar 40 shekels por dia.

 

Desde que o assédio a Gaza foi reforçado em junho de 2007, quase não há materiais de construção que tenham entrado na região, segundo o informe da OCHA [Agência das Nações Unidas para a Coordenação das Questões Humanitárias]. Comparando com o período anterior aos ataques, os níveis de importação somavam 7.400 caminhões por mês, de janeiro a maio de 2007. Segundo os informe da página web das Nações Unidas, de janeiro a maio de 2007, os caminhões que entraram em Gaza foram 3.900. Durante o mesmo período deste ano, só seis caminhões conseguiram entrar. Os materiais transportados são para os projetos de água, de enorme necessidade e complexidade, que esperam há muito tempo.

 

As autoridades israelenses dizem que a proibição dos materiais de construção é para evitar que Hamás faça "duplo uso" desses artigos para fins militares.

 

Contudo, as agências que não são coordenadas por Hamás, as escolas e postos de saúde se deparam com as mesmas restrições à importação de cimento, brita, madeira, azulejos, canos, tintas, vidro e barras de ferro, conforme assinala o informe da OCHA.

 

A técnica dos tijolos de barro, estendida para além dos fornos de argila, prevalece em Gaza para a construção de casas, o que poderia responder a algumas das enormes necessidades de construção da região.

 

A leste da cidade e Gaza, no distrito de Al-Shojayia, os engenheiros enfrentam o desafio de construir com argila um prédio de vários andares: uma escola de três nadares para 600 crianças com necessidades especiais está em construção utilizando uma combinação de tijolos de barro e escombros dos restos das casas e prédios destruídos durante os ataques israelenses.

 

Segundo o informe do jornal The Guardian, o engenheiro Maher Al-Batroukh junto aos engenheiros da universidade testam tijolos de argila mais resistentes. Quando estiver terminada, a escola terá cerca do dobro do tamanho da delegacia de polícia com tetos abobadados e revestimento.

 

Ao observar o êxito dos esforços da construção com argila, o Ministério das Obras Públicas de Hamás vê uma alternativa na construção com tijolos de barro, com planos para construir casas de vários andares e reerguer prédios públicos destruídos.

 

Enquanto alguns estão encontrando os meios para driblar a proibição de Israel em quase todo o necessário para reconstruir Gaza, o assédio em curso continua golpeando a vida cotidiana a ponto das últimas notas das Nações Unidas informarem que o fechamento das fronteiras e os atrasos na entrada de mercadorias estão devastando a vida e causando um progressivo subdesenvolvimento.

 

O informe da OCHA cita o prejuízo à educação, incluindo a vacinação, pois as escolas foram destruídas ou danificadas, e o rechaço ou atraso da entrada de materiais escolares.

 

Numa declaração de agosto de 2009, Maxwell Gaylard, Coordenador de Assuntos Humanitários das Nações Unidas para o território palestino ocupado, assinalou que a "deterioração e decomposição da água e do saneamento básico em Gaza estão agravando a já severa e prolongada negação da dignidade humana na Faixa de Gaza".

 

Gaylard, junto à Associação de Agências de Desenvolvimento Internacional (AINDA), sublinha que o rechaço de Israel à entrada de equipamentos e materiais necessários à construção, manutenção e operação das instalações de água e esgoto desde junho de 2007 tem levado à "progressiva degradação desses serviços essenciais".

 

Depois da destruição provocada pelos ataques israelenses, a declaração diz que os serviços de água e esgoto de Gaza estão "à beira do colapso", apontando que os poucos materiais permitidos não são "nem de longe suficientes para restabelecer o abastecimento de água e o pleno funcionamento do sistema de esgoto".

 

Cerca de 60% da população não tem acesso permanente à água, aponta o comunicado. Cerca de 10.000 pessoas em Gaza não têm o menor acesso à rede de água. Isso, combinado com os 50-80 milhões de litros de água não tratada e as parcialmente tratadas águas residuais que, desde janeiro de 2008, são diariamente jogadas sem tratamento algum, acaba agravando a crise de água e saneamento.

 

Ainda que pessoas com recursos tenham construído casas apesar da proibição à entrada de cimento, os vários informes destacam que os numerosos problemas criados pelo assédio e os ataques israelenses a Gaza são grandes demais para serem resolvidos com a improvisação e o barro.

 

O Centro Palestino pelos Direitos Humanos (CPDH) informa que 60 postos policiais foram destruídos ou danificados durante o inverno 2008-2009 pelos ataques israelenses em Gaza.

 

O informe da OCHA de agosto de 2009 diz que mais de 6.400 casas foram destruídas ou gravemente danificadas, e outras 52.000 sofreram danos menores nos bombardeios durante a guerra de inverno de Israel em Gaza.

 

O informe da OCHA diz que o constante assédio israelense a Gaza tem impedido a reconstrução ou o reparo de 13.900 casas, incluindo cerca de 2.700 casas danificadas ou destruídas em operações militares israelenses anteriores e de 3.000 casas destinadas a substituir as moradias inadequadas dos acampamentos de refugiados repletos de gente.

 

Mais de 20.000 palestinos permanecem refugiados em Gaza, e cerca de 100 famílias ainda vivem em tendas de emergência proporcionadas pelos organismos de ajuda.

 

O CPDH informa também que 215 fábricas e 700 empresas privadas, 17 universidades ou centros de formação superior, 15 hospitais e 43 postos de saúde, e 58 mesquitas foram destruídas ou danificadas durante os ataques. As Nações Unidas dizem que 298 escolas foram destruídas ou danificadas.

 

Todos eles esperam a reconstrução, assim como a destruída economia de Gaza.

 

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