O presidente João Goulart faleceu no dia 6 de dezembro em sua fazenda no município argentino de Mercedes. A historiografia do período até então, escrita em grande parte por cientistas políticos ou jornalistas, dava como certo a morte por questões cardíacas. Devo fazer o registro que o corpo do presidente foi enterrado no município gaúcho de São Borja sem direito a autopsia.
Jango, seu apelido de infância, foi execrado pela academia e pela sociedade brasileira, tanto pelo lado dos conservadores que não engoliam as reformas propostas por seu governo trabalhista e reformista. Quanto pela esquerda que parecia não acreditar que as reformas eram realmente pra valer.
Entretanto, alguns historiadores têm dado especial atenção ao estudo do presidente, não mais como mera figura em uma estrutura política maior, mas como personagem central e um ator político de características ímpares. Chamo atenção aos trabalhos de Marieta de Moraes Ferreira “João Goulart – entre a memória e a história (FGV, 2006)”, “Jango – as múltiplas faces, (FGV,2007) de Ângela de Castro Gomes e Jorge Ferreira” e “João Goulart: Um projeto de nação” de Oswaldo Munteal, Adriano de Freixo e Jaqueline Ventapane (PUC-Rio/Boitempo, 2006).
Baseados em fontes orais, o livro “Jango – as múltiplas faces” sinaliza para o fato de que a morte de Goulart fora realmente por questões de ordem médicas. E essa tendência foi confirmada pelo autor do livro em recente entrevista na Folha de São Paulo. Nela o autor lembra que Jango tinha sérios problemas com o colesterol, fumava em demasia e tinha dificuldades em subir escadas.
Certamente, o golpe, a distância e a impossibilidade de retorno a seu país, aliados a problemas de saúde contribuíram para a morte do presidente. Na bela passagem de Carlos Castello Branco “O presidente João Goulart, sem condições de voltar ao Brasil, compelido a deixar a Argentina e aconselhado a não permanecer no Uruguai, morreu na madrugada de ontém numa cidade da fronteira, como um peão perdido à procura do caminho de volta ao seu galpão”.
Mas os historiadores devem estar atentos a novos fatos. Sobretudo quando tratamos de História do Tempo Presente. O curto recuo temporal nos obriga a ter metodologias específicas, ainda mais quando tratamos de uma história em que há uma abundante documentação reservada, secreta, ainda não revelada. Bloch ensinava que o historiador deveria se parecer ao ogro da lenda, onde farejasse carne humana ali estava sua presa: seu objeto histórico. O problema é que na História do Tempo Presente certos documentos podem estar manchados de sangue fresco.
A família Goulart, através do Instituto Presidente João Goulart, conseguiu a liberação, Habeas Data, de uma série de arquivos secretos sobre o presidente. O que se tem visto, e exposto pelo presidente do instituto João Vicente Goulart, é que há documentos que apontam para a eliminação física de Jango.
O presidente Goulart teria sido monitorado pelo serviço de inteligência do regime militar, mesmo fora do país, que teria infiltrado um agente responsável por trocar os frascos do remédio que o presidente tomava. Mario Neira Barreiro é o nome do ex-agente do serviço secreto uruguaio, o que mais uma vez comprovaria as ligações entre os países do cone sul, responsável pelo assassinato. Pelo menos assim ele está se intitulando. A mídia vem dando cobertura as recentes declarações e investigações. Barreiro confessou o crime para a Folha de São Paulo e ao Jornal Nacional.
Uma “Operação Escorpião”, apoiada pelo então ditador Ernesto Geisel e executada pelo delagado do Dops Sérgio Fleury, aparece agora como incognita para uma nova historiografia do período que já merece uma reavaliação. A Polícia Federal vai entrar no caso e a equipe de pesquisa do Instituto Presidente João Goulart, coordenada pelo historiador Oswaldo Munteal está tendo acesso aos documentos que parecem confirmar a existência da Operação Escorpião.
Como queria Ginzuburg o historiador deve ir atrás das pistas e do paradigma indiciário. Se as evidências forem confirmadas com os documentos que aos poucos vão se tornando públicos, não poderemos hesitar em reescrever uma história silenciada e farsiada. Por isso é fundamental que todos os arquivos da ditadura militar brasileira sejam logo abertos e transformados em dominio público. Não se trata de revanchismos ou de se mexer em feridas já cicatrizadas como gostam de propagar certas pessoas. Se trata sobretudo de uma investigação histórica. É necessário termos ciência de nossa memória para que possamos criar nossa própria identidade. Mesmo que o resultado da pesquisa histórica seja desagradável, triste e sombrio.
Pedro Henrique C. Torres (Historiador)
Fevereiro de 2008.