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Boletim Agora Espaço Público As eleições de 2008 nos Estados Unidos: Barack Obama: “The Audacy of Hope”

As eleições de 2008 nos Estados Unidos: Barack Obama: “The Audacy of Hope”

Escrito por Clarissa F. do Rêgo Barros    Dom, 15 de Junho de 2008 21:24

    A questão racial nos EUA é importante para a compreensão dos problemas sociais sofridos pelo país, na medida em que, no contexto atual de um Estado de segurança que prevê o controle das imigrações, do combate ao terrorismo e também do próprio índice de desenvolvimento social da comunidade afro-americana após a conquista dos direitos civis. Esta percepção permite uma reflexão em torno do racismo e preconceito por meio de um olhar sob o direito à cidadania americana e o reconhecimento como cidadão, tais conclusões implicam na percepção legal, na liberdade civil, que muitas vezes não contribui para eliminação da ideologia racial construída entre os indivíduos.

Atualmente nos EUA, a candidatura de Barack Obama – senador de Illions, advogado e professor; têm causado polêmica entre os eleitores americanos, no que diz respeito a representatividade do candidato como um líder negro.

Barack Hussein Obama, filho de um queniano casado com uma americana branca, nasceu em Honolulu em 1961. Com seis anos de idade se muda para a Indonésia com sua mãe Ann, já divorciada de seu pai Barack Sr.[1]De acordo com as palavras do próprio Obama em seu primeiro livro: Dreams of my father, ele admite ter tido dificuldades em encontrar raízes e identidade, o que o deixou dividido durante a adolescência em ser um negro que não compartilhava com a realidade da maioria dos negros americanos e sim ter proximidades com um garoto de classe média branca.

            Apesar dos dilemas como adolescente e das experiências com drogas e entorpecentes, Obama resolveu deixar o Havaí e seguir para Costa Oeste dos EUA para estudar em 1979. Em 1983 ele se forma em Ciência Política pela Universidade de Columbia, onde começa a atuar na luta pelos direitos civis em 1985, no mesmo ano em que se mudou para Chicago.

            Nos anos 1990, Obama se casa com Michelle Robinson, e começa a lecionar Direito Constitucional na Universidade de Direito de Chicago, onde atua como professor de 1993 até 2004. No ano de 1996 é eleito para o Senado estadual em Illions e reeleito em 2004 como o quinto senador negro da história.

            Como membro do partido democrata, Obama admite a importância de mudanças sob as perspectivas conservadoras do atual governo republicano de Bush, se colocando sob uma postura de defesa aos direitos civis e sociais, o candidato aposta no apoio dos imigrantes e afro-americanos para chegar a presidência no ano de 2009.

            Tendo em vista que a democracia nos EUA funciona por meio dos colégios eleitorais e não pela soma total de eleitores, estima-se que as duas grandes lideranças compondo a dupla de candidatos com maiores chances à presidência é Hillary Clinton com 249 delegados e Obama com 181 delegados (O GLOBO 31/01/2008).

            Ambos os candidatos em particularidades que trarão novidades à representatividade política nos EUA, onde Hillary aparece em cena como a primeira mulher com fortes chances de chegar a presidência e Obama como o primeiro negro. No entanto, Barack Obama preferiu não se posicionar como o representante da comunidade afro-americana, assumindo um posicionamento universalista ao discutir a questão racial. A neutralidade frente as diversidades étnicas e culturais presentes nos EUA entusiasmou a bancada democrata e muitos americanos, o permite ao candidato o apoio da comunidade negra e também dos imigrantes presentes no país.

            Freqüentador da igreja protestante: Igreja Unida de Cristo, Obama aproveitou o espaço religioso, como muitos políticos, para fazer política e obter apoio. Quando esteve nas igrejas de Ebenezer e a King of Atlanta, admitiu uma proximidade com o posicionamento de Martin Luter King. Mas segundo dados do jornal O GLOBO (22/01/2008), algumas pesquisas revelaram que 40 anos após o assassinato de Martin Luther King, um apoio as idéias do antigo líder podem servir como um poderoso cabo eleitoral. De acordo com a CNN, 72% dos americanos brancos dizem estar preparados para receber um presidente negro, os números entre os negros diminuem, ficando com o percentual de 61%, onde dos eleitores negros dizem estar preparados. Independente do eleitorado, o candidato a presidência possui apoio das personalidades negras americanas mais influentes no show bizz como Oprah e também de lideranças civis, como o pastor negro Jessé Jackson – candidato à ´residência em 1984 e 1988.

Of course, racism and nativist sentiments have repeatedly undermined these ideals, the powerful and the privileged have often exploited or stirred prejudice to futher their own ends. But in the hands of reformers, from Tubman Douglass to Chavez to King, these ideals of equality have gradually shaped how we understand ourselves and allowed us to form multicultural nation the likes of which exists nowhere else on earth”. (OBAMA, 2006:32)[2].

            Em sua autobiografia “The Audacity of Hope”, Obama discute a percepção do racismo nos EUA como uma dificuldade de conceber e perceber a atual nação americana como uma sociedade multicultural. Está visão irá permear as idéias políticas do candidato em torno da opção por posicionar-se um candidato universal, o que significa que os negros que apóiam a candidatura de Obama não se relacionam com ele apenas por meio da identificação física e cultural, mas também porque acreditam que a defesa do discurso racial não importa tanto quanto a formulação de políticas como um bem comum.

            De acordo com Obama o preconceito em relação a um negro é enorme e explícito no dia a dia em termos de dificuldades de emprego, ou até mesmo em situações corriqueiras como pegar um táxi à noite, mas a nova geração de negros tem conseguido bons postos de trabalho e isso não se refere apenas as ações afirmativas. The idea represents a radical break form the past, a severing of the psycological shackles of slavery and Jim Crows. It is perhaps the most important legacy of civil rights movement, a gift from those leaders like John Lewis and Rosa Parks who marched, rallied, and endured threats, arrests, and beating to widen the doors of freedom”. (Obama, 2006:242).

            Neste sentido, a conquista da liberdade compreende um alcance a integração social, no que se refere à educação, ao emprego, à família, saúde e moradia. Obama perpassa pela importância de políticas sociais direcionadas ao direito à oportunidade, visto que o problema em torno dos afro-americanos, não é apenas legal – relacionado a luta dos direitos civis; mas sobretudo é social, e esta idéia não implica em acabar com as ações afirmativas: an emphasis on universal, as opposed to race-specific, programs isn´t just good policy, it´s also good politics. (2006:247).

            De certo, o que podemos esperar de um candidato com grande representatividade na disputa à presidência é que a estratégia universal não é um política apenas em busca da igualdade entre os cidadãos americanos, mas também um estratégia política e eleitoral em torno dos imigrantes, negros e brancos. A defesa da universalidade em relação à raça, aparece explicitamente na autobiografia de Obama como um recurso à compreensão da dificuldade e da ilegalidade de inúmeros imigrantes que compõem a população americana atualmente, e que possivelmente podem contar para a decisão eleitoral entre ele e Hillary.

            Diante da longa discussão em torno das dificuldades históricas em relação ao alcance dos direitos civis à comunidade negra nos EUA, a grande representatividade de Obama nestes segmentos sócio-culturais não devem passar despercebidos, ou seja, é importante discutir a questão racial americana para aprender a lidar com os obstáculos que dificultam a sua compreensão e a conseqüente superação.

            Lideranças com representatividade a história americana possui alguns muito importantes como: W.E.B Du Bois, Luter King. Malcon X, entre outros que não abriram mão da ação e discussão como forma de reconhecimento. O direito a oportunidade e a ascensão social não viabiliza o reconhecimento enquanto cidadão em uma sociedade racista como a norte americana, tal afirmativa é possível verificar em filmes como Crash No limite[3], em uma cena em que a noção do preconceito por parte de um jovem policial decidido a não seguir o exemplo racista e discriminatório do parceiro frente aos afro-americanos, acaba contrariando suas expectativas quando o mesmo atira em um negro em seu carro acreditando que este fosse um marginal.

            A compreensão da multiculturalidade como uma expressão da diversidade deve ser fundamentada a partir de um diálogo com a sociedade, e isso é fundamental para um presidente como Obama que almeja chegar a presidência com a representatividade de um líder e não de um candidato, tendo um sua imagem o apoio de eleitores que esperem reformas neste sentido.



[1]  Segundo os dados da Revista Época (18/02/2008 – Mundo), o pai de Obama, Barack Sr. Era um militante africano preocupado com as questões políticas de seu país. Por este motivo muda-se para os Eua por acreditar que o desenvolvimento estaria no distanciamento da tradição. Frutado politicamente e longe da família vem a falecer em 1982 em um acidente de carro.

[2] OBAMA, Barack. The Audacity of Hope. New York: Crown Press, 2006.

[3] Crash No Limite (2004). Direção: Paul Haggis. Imagem Filmes 100min

 

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