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Editorial

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Escrito por Marcos Abreu Leitão de Almeida    Dom, 07 de Agosto de 2011 13:11

Outrora relegado dos domínios da história, o tempo presente e o imediato apresentam-se atualmente como terreno fértil aos historiadores. Essa conquista, no entanto, não é fruto de modismos acadêmicos, sendo antes um movimento profundo e
maturado que busca inserir o presente nos domínios de Clio. Houve já um esforço sistemático para um debate epistemológico e metodológico, pondo á prova sua validade, consolidando este novo território da história. Expor os pontos principais deste debate não é nosso objetivo neste editorial, além do que outros historiadores mais experientes do que nós já o fizeram. A nós interessa definir e separar o que estamos chamando de história do tempo presente e história imediata para, então, expor nossos objetivos.

História Imediata

Esta terminologia levanta mais polêmicas do que o termo história do tempo presente. Sim, imediata, mas quão imediata? Acaso é possível escrever no calor do acontecimento? Este tipo de história define-se como uma proximidade temporal e material acentuada entre o sujeito e objeto. Nesse sentido, o trabalho de quem se dedica a este tipo de pesquisa se assemelha ao do tradutor simultâneo, que não sabe o fim da sentença, mas já se dedica a traduzir seu começo.

De fato, a história imediata foi o campo privilegiado aonde “historiadores sedentos de atualidade”, cansados de serem os guardiões do passado, e “jornalistas em busca de legitimidade”, cansados de serem Sísifos do efêmero, se encontraram.   Assim, este tipo de história é tributária tanto das técnicas jornalísticas ,uma vez que se utiliza da fabricação de dossiês, da entrevista no campo, do uso do gravador, do banco de dados da imprensa, que são recursos diretamente emprestados das salas de redações, quanto do rigor histórico, expresso no olhar crítico, nas interações presente/passado, e na inserção dos fatos nos processos históricos, típicas ferramentas da oficina do historiador.

Por isso, pode-se afirmar que a história imediata é um gênero híbrido entre a história e o jornalismo. Encontraremos, portanto, narrando esta história, o historiador-jornalista, e o jornalista-historiador. Mas acima de tudo, não podemos esquecer que ela é sempre um testemunho. Por mais rigor que o autor da obra se utilize, por mais acurada e objetiva a análise do livro seja, ela permanecerá sempre um testemunho de seu tempo, pois seu autor tem relação direta com o tema - ele é um ator social da própria história. E aqui lembramos do livro L´Etránge Defaite (1940), de Marc Bloch, um historiador e um membro da resistência francesa. Assim, se esta história não é verdadeiramente uma pesquisa histórica, ela tem um papel social que tanto complementa a história do tempo presente, quanto levanta matéria para reflexão. Falar do imediato é um retorno do intelectual ativo, conectado com as questões prementes de seu tempo,  que não apenas busca entendê-lo, explicá-lo , mas também transformá-lo. Aqui reivindicamos para o historiador o próprio papel de ator nos processos históricos e que, mesmo diante dos perigos de se fazer uma análise por demais subjetiva, não titubeia ante os riscos de tal reflexão. A busca pela verdade histórica, ainda que impossível de se concretizar inteiramente, continua a ser o guia de todo historiador. Como bem afirmou Jean-François Sirinelli, “assumir a subjetividade é meio caminho andado para controlá-la”.

Nesse sentido, nos espelhamos em filósofos e historiadores de diversas matrizes intelectuais, como Marx, Marc Bloch, Said.

História do Tempo Presente

A História do presente, esta sim, insere-se na verdadeira pesquisa histórica. Aqui cedemos a palavra à Serge Bernstein e Pierre Milza:

"A história do Presente é primeiramente e antes de tudo história. Sem negar as especificidades que a marcam, (...), seus objetivos, métodos, fontes, a história do Presente não difere em nada da História do século XIX. (...) O historiador [do

presente] tenta restituir a evolução na duração que permite compreender por que o processo chegou-se à situação presente: ele se dedica a descrever as estruturas cujas transformações dão conta da emergência factual de fenômenos cuja gênese se situa sempre a médio ou longo prazo.".

Assim, a história do tempo presente tem um recuo expressivo, ainda que ela seja feita diante de seus atores. E porque o presente é sempre fugidio, os limites do tempo presente precisam ser revistos continuamente.

A História Agora

Portanto, História Agora tem dois significados. O primeiro delimita o tempo em que vamos situar o nosso estudo, o sempre fulgaz presente, o agora. O segundo é de ordem imperativa e contrária. Combatendo o efêmero, bradamos a necessidade da história em nossas vidas, de diminuir o vão entre nós e o nosso passado, de buscar inteligibilidade aos acontecimentos atuais, massificados pela mídia que, no máximo, faz um resumo do dia, através do jornal do horário nobre. Trata-se, pois, de inserir os acontecimentos atuais e do tempo presente nos processos históricos. Agora, é preciso ter história.

Para isso, julgamos necessário que se observe a história do tempo presente através de suas múltiplas abordagens, sejam elas econômicas, sociais,culturais, políticas ou sociais, para não incorrer no perigo de apresentar apenas questões parciais. A revista História Agora tem por objetivo abrir um espaço para que intelectuais, pesquisadores e estudantes, possam debater, divulgar e entender as questões que se encontram em aberto nesse inicio de milênio.

Última atualização em Dom, 07 de Agosto de 2011 13:21
 

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