Mensagem para você. Ou não?

A modernidade criou novos problemas e novas confusões para o cotidiano. No tempo do pombo-correio e das cartas escrita pelo próprio punho, acho improvável errar o destinatário. A facilidade de comunicação proporcionada por computadores e smartphones, e-mails e aplicativos de mensagens como os WhatsApp permite que vez por outra a vida ganhe ares de comédia pastelão ou tragédia grega, dependendo do ponto de vista da vítima. Quem nunca enviou uma mensagem constrangedora para a pessoa errada que atire a primeira pedra.

Nos idos dos anos 1990, quando o e-mail ainda era uma grande novidade, eu e meus colegas adotamos com entusiasmo a nova forma de comunicação. Chegávamos a marcar almoços por mensagens, apesar de estarmos separados por poucos metros de distância.

O conteúdo misturava informação de teor prático (hora, local) com comentários cáusticos sobre os excluídos (i.e. chatos de plantão). Claro que era uma questão de tempo até que algum acidente acontecesse. Afinal de contas, tudo era muito recente e nem todo mundo dominava o básico da ferramenta.

Pois um belo dia, sem que ninguém percebesse, algum infeliz incluiu na lista dos destinatários um dos tais chatos, que ocupava nada menos do que o cargo de gerente-geral e era um sujeito com incrível complexo de perseguição. Chato mesmo.

Na hora do almoço, quando nos preparávamos para sair, ele também pegou seu paletó. Um de nós perguntou, querendo ser simpático:

-E aí chefia, já vai almoçar?

– Vou sim, vou com o grupo que me acha chato, mal humorado, centralizador, duro, burro, e outras coisas.

O silêncio foi total. A paralisia foi tamanha que o elevador chegou e foi embora sem que ninguém se mexesse. Estávamos com a cara no chão.

O gerente prosseguiu:

– Preferia saber isso tudo da boca de vocês, como homens, em reuniões que tanto promovemos, mas o que percebi realmente é que vocês ainda não sabem mexer nas ferramentas do computador. Na volta do almoço que não irei, contratarei um curso de computação e ninguém vai ficar de fora.

O elevador chegou e descemos todos mudos. Na rua, começou um verdadeiro inquérito para apurar quem tinha errado na hora de acrescentar os participantes da conversa.

Como colegiais, ríamos e nos cutucávamos de paletó e gravata em plena Avenida Paulista. Quando chegamos ao restaurante na mesa que gostávamos de sentar, encontramos o gerente com a mulher mais bonita do escritório.

Nunca poderíamos imaginar que o troco fosse tão bem dado. Obrigamos o sujeito que o chamou de burro a pagar a conta, o que ele fez a contragosto, mas concordando de ter tomado a “volta” do gerente. À tarde, fomos informados sobre as novas – e obrigatórias – aulas de computação. Seriam às sextas-feiras, das 18h às 19h.

Como se dizia antigamente, o gerente fez mesmo barba, cabelo e bigode.

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