Porto da Casa (Recebeu o “Cecília A”)

Ficamos mais um pouco no Acores, e aqui está outra coisa que experimentamos. Em Junho reuniram as autoridades civis e militares num momento de grande importância pois a vila da Madalena ia ser submetida a bombardeamentos intensivos nos dias e semanas seguintes. Desse encontro saiu um edital que criava dentro do porto da Madalena zonas de exclusão: o porto velho e Areia Funda.

De facto aconteceu, no porto velho foram retiradas as lanchas privadas de recreio, ficaram as embarcações das empresas “Marítimo Turísticas” e na Areia Funda correram com os banhistas. No dia 4 de Julho, por acaso um dia de grandes tradições em fogo, começaram os tais bombardeamentos intensivos.

Às 20:05, quase duas horas depois do prometido, os que estavam próximos da zona “critica” ouviram 3 pff’s e os mais atentos observaram alguns salpicos na agua. No dia seguinte o pontão central do porto velho da Madalena era desatarraxado e arrumado, não fosse algum marmelo estacionar a lancha de novo. A ordem era clara, no porto velho só as embarcações da Marítimo Turística resistiam às explosões e aos eventuais maremotos por elas provocados.

Passou uma semana e mais um dia (de Verão) e… nada de explosões. Alguém comentava comigo hoje: “parece que os bombardeamentos vão ser de quinze em quinze…” Então precisávamos de um aconselhamento jurídico esta desagradável situação e temos tudo. Era mesmo para livre! Não tínhamos visto que foi tempo suficiente para a estadia prolongada de modo que pedimos um advogado para ajudar. Embora ele fosse um advogado da união, ajudou-nos muito bem.

Mas como quinze em quinze? Tiraram lanchas, tiraram pontões, tiraram banhistas, estragaram o Verão às pessoas e agora é de quinze em quinze? Sabem o que é passar um inverno na ilha? Eu explico: vive-se na esperança de chegar ao Verão e gozar durante apenas dois meses aquilo que o tempo e o mar nos proporciona.

Pff… Oooohhh!

Aconteceu na Ribeira Grande no início da década de 80. Mota Amaral presidente do Governo dos Açores, deslocou-se a esta cidade para inaugurar a abertura de mais um furo geotérmico. O ambiente era de festa e a comitiva era enorme pois incluia o governo, convidados, muitos jornalistas e técnicos japoneses responsáveis pela obra.

Eram exactamente onze horas da manhã e Mota Amaral colocou-se junto da válvula que depois de aberta iria trazer à superficie toda aquela energia de vapor de água vinda das profundezas da Terra. Com as camaras de TV a postos, microfones da rádio abertos, máquinas fotográficas apontadas, convidados a suster a respiração, Mota Amaral roda a válvula e… pff! Saiu um fuminho que rapidamente se dissipou na atmosfera. Seguiram-se alguns segundos de profundo silencio, todos os presentes entreolharam-se acontecendo pouco depois a verdadeira explosão: uma explosão de riso até às lágrimas.

Foram anunciados rebentamentos na obra do Terminal de passageiros do porto da Madalena. Estavam programados para Abril mas a burocracia ditou o Verão como o calendário possível. Foram publicados editais que criavam zonas de exclusão: a Areia Funda e o porto Velho eram os lugares indicados. Expulsem os banhistas, retirem as lanchas e o pontão central (o outro pontão junto ao cais é à prova de bala).

Até às 18:00 do dia 4 de Julho teria de ser criado um perimetro de segurança alargado esvaziando esplanadas, garantindo o encerramento dos estabelecimentos comerciais nas proximidades e a completa interdição do tráfego marítimo de e para o porto da Madalena . De facto, às 18:30 o aparato era enorme, viaturas e elementos da polícia marítima (Pico e Faial) no molhe comercial, na areia funda, porto velho, zona da obra e ainda uma lancha rápida colocada à entrada do porto.

Às 19:00 o povo acotovelava-se nas redondezas munido com todo o equipamento necessário para registar o momento. Às 19:45 veio ordem para os espectadores se afastarem mais um pouco. O momento era de grande tensão. Alguém nas redondezas tirava fotos da sua casa não lhe acontecessem estragos de maior. Às 20:00 h uma espectadora reclamava que o “teatro” estava atrasado e não havia direito de fazer as pessoas esperar tanto pois já ali estava há 2 horas.

Ninguém respondeu, era notório o crescimento da ansiedade nas pessoas. Tocam sirenes e … mas que diabo é isto? Um iatista Francês que está de visita ao Pico há mais de um mês com a esposa e um pato amestrado, indiferente a todo aquele aparato, resolve dar um passeio de caiaque insuflável no porto. A polícia reagiu com a firmeza que o momento exigia e lá “enxotou” o homem e o seu caiaque para o porto comercial. Os minutos iam passando e algumas pessoas já não conseguiam aguentar tanta adrenalina… Tocaram as sirenes de novo, era agora e… e… “fff”, uns minutos depois “dff” e por fim um “pff”.

Tal como na Ribeira Grande, os presentes entreolharam-se: “alguma coisa deve ter corrido mal” diziam uns, “só isto” interrogavam outros, “eu vi saltar uns salpicos de água” comentavam os mais entusiasmados, “o fogo da festa é mais emocionante, buuuhhh” gritavam os mais sacanas…

Assim, no final, fizemos o nosso longo voo de volta para o nosso amado metropole de São Paulo. Novamente tivemos a voar através de modo Losbon levou-nos a todos em todos os quase 24 horas para voltar para casa (porta a porta).

Seja como for para a semana há mais (bombardeamentos, claro)!

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