Maravilhosamente cara (como sempre)

Todos os fins de semana, quando saio para caminhar, acabo me deparando com dezenas de ônibus carregados de turistas que vão visitar o Pão de Açúcar. Passo pela fila, no sol, e vejo o ambulante vendendo uma garrafa de água por R$ 5,00. É a mesma que encontro por até R$2,00 no supermercado. Penso que todos têm direito a lucro, mas assim é demais. E ainda escuto o aviso do vendedor:

— Lá em cima é R$ 10,00

Cada vez que resolvo almoçar no Centro da cidade, no Rio, pago por um self service quase R$ 43,00 por quilo e imagino o quanto lucram os restaurantes. Depois me lembro dos impostos e do aluguel, chego à conclusão de que não deve ser um negócio tão bom assim.

Todas as cidades de grande afluência de turistas são caras. Isto é ponto pacífico e sem direito a discussão. E as cidades tendem a ficar mais caras em comparação a outras quanto estão sujeitas a três acontecimentos, concomitantes ou não: grandes eventos mundiais (Copa do Mundo, Olimpíadas, corridas de Fórmula 1, exposições mundiais, peregrinações religiosas, etc); eventos regionais de repercussão mundial (festivais, carnaval, festas religiosas, etc), ou quando a economia de um país está bem e sua moeda vale mais do que a de outros.

O Rio de Janeiro passa pela preparação de uma Olimpíada e pela crise que assola o país todo. Faço a ressalva que o câmbio é artificial, isto é, controlado pelo governo para que a inflação não dispare. Logo a moeda mais forte não é fruto de bom desempenho da economia.

Junto com todos os fatores, a cidade tem uma geografia complicada. As belezas naturais se concentram em área densamente habitada, o crescimento se deu em direção a uma região onde não houve investimentos para a melhoria na ligação entre o novo e o antigo, quase que “partindo” a cidade em duas. Com isso, a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes ficaram um tanto isolados da cidade, desenvolvendo uma vida própria.  Assim se hospedar perto do que é “vendido” ao mundo como sendo as atrações principais ficou muito caro. A alternativa de se hospedar mais longe traz o inconveniente do desperdício de horas no deslocamento.

O que acontece nesse momento é que os habitantes da cidade começaram a se incomodar com os transtornos que tudo isso vem provocando, principalmente com o tempo dispendido com o transporte, o custo de vida e o preço de imóveis e aluguéis.

Para se ter uma ideia do problema geográfico da cidade, os dez principais bairros da Zona Sul da cidade tiveram os preços dos aluguéis elevados cerca de 20% na média em 2015 e outros 18% em 2016, 15% em 2017 segundo a SECOVI-RJ (Sindicato de Habitação), mesmo com a alta forte da taxa de juros.

Isso afeta o preço das diárias dos hotéis, que superam no caso de alguns de três ou quatro estrelas os preços praticados em Nova York e Paris, conhecidas durante décadas como cidades muito caras, como já apontou a ABIH-RJ (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis).

Em uma cadeia de acontecimentos econômicos, os preços das refeições também disparam. Segundo a Assert (Associação das Empresas de Refeição e Alimentação Convênio para o Trabalhador), a cidade do Rio de Janeiro tem o maior preço médio por refeição fora de casa, considerando-se todos os tipos de restaurante. E se falarmos apenas daqueles com serviço à la carte, então o susto seria ainda maior.

Esse é um dos motivos pelos quais os brasileiros viajam cada vez mais para o exterior. O turismo interno é caro. E é por isso que ainda temos déficit de turistas, isto é, mais brasileiros viajando para fora do que estrangeiros em visita ao país. A programação dos próximos anos dará algum equilíbrio a esses números, mas os turistas não encontrarão grandes pechinchas e a cidade pode jogar fora a sua maior oportunidade de “pagar” as obras e instalações realizadas.

Não há solução de curto ou médio prazo para o carioca. Os transportes públicos de massa facilitarão a vida a partir de 2019, se tudo correr bem, mas a cidade é espremida entre o mar e as montanhas e o espaço será cada vez mais caro e escasso. Assim, o ideal seria fazer a vida em seu bairro, como tem sido a tendência em São Paulo.

Somente uma mudança econômica grande ou o tempo farão os preços na Cidade Maravilhosa recuarem. Por ela ser maravilhosa, há um preço a se pagar para morar nela ou visitá-la.

Estão dispostos a pagar?

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